sexta-feira, 11 de março de 2011

(R)escrevendo a História do Brasil

Qualquer nação tem duas Histórias. A que acontece e a que é escrita (e reescrita).

Com o Brasil não seria diferente. Os fatos que marcaram a história nacional são os mesmos, mas a maneira de descrever e compreender varia conforme a época e os olhos de quem conta. Até mesmo a seleção de quais são os fatos marcantes da História do Brasil varia conforme o autor.

Como toda ciência, a História tem métodos que mudam e se aprimoram (às vezes regridem). Como a História é uma ciência humana e é contada por palavras, as opiniões do autor invariavelmente vão contaminar o relato. Afinal, não existe comunicação neutra. Até um singelo sorriso revela uma posição política.

Em geral, a História é escrita pelos vencedores. Desculpem o lugar comum, mas é verdade.

Durante o período colonial e o Império, a História Brasileira foi contada pela visão dos portugueses. Desta época, aprendemos como os bravos aventureiros se arriscaram pelo mar desconhecido, só pelo sabor da aventura. E, de brinde, conquistaram um pedaço do novo mundo. Nosso heróico País realizou muitas façanhas, apesar de seu povo. Neste período surgem os grandes heróis, pois as qualidades individuais dessas grandes personalidades é que as diferenciam do resto do povo. É uma história cheia de datas e personagens.

Com o advento da República, uma nova História precisa ser contada. Afinal, como endeusar a independência que foi proclamada pelo pai do Imperador recém-deposto? Neste momento, descobre-se que a independência não foi simplesmente proclamada, ela foi um processo de lutas: eis que surge Tiradentes, um personagem que sequer aparecia nos livros anteriores, não apenas por ser persona non grata, mas porque sua revolta teve pouca repercussão. Ainda sim, Tiradentes é a figura perfeita para o mártir, que lutou pela independência contra a tirânica família do ex-Imperador. Esta História é cheia de lugares, de cidades que foram fundadas por pessoas que não eram da família real, de territórios conquistados militarmente pelo Exército e das expansões dos Bandeirantes (antepassados dos novos donos do poder).

Com a queda da República Velha, uma nova História surge. Curiosamente, durante a ditadura do Estado Novo, a História lembra de contar que no Brasil, além das datas e dos territórios, havia um Povo. O samba e a feijoada recebem status de símbolos nacionais e a participação coletiva deu um novo colorido às conquistas do passado: além do Padre José de Anchieta, existiam os índios e os demais jesuítas. Além de Raposo Tavares e Fernão Dias, havia outros bandeirantes. Além dos donos das capitanias hereditárias havia os escravos e os quilombos. É uma história de portugueses, negros e índios, que misturados são os Brasileiros.

Essa História, escrita em três partes, é contada até os tempos da Ditadura Militar (1964-1985). Ocasião na qual ela recebe alguns elementos novos. Inicialmente um grande ufanismo. Todo o sangue derramado na construção do Brasil é apagado, a não ser quando se trata de feitos militares contra outros povos (franceses, holandeses, paraguaios etc). As figuras de destaque recebem aura quase-mística, reabilitando inclusive os D. Pedro, antepassados e descendentes. O Exército se torna uma instituição fundamental da Nação, responsável por feitos que aconteceram até mesmo antes dele existir (só existe de verdade a partir da Guerra do Paraguai, apenas em 1864). Na História da Ditadura, o Brasil sempre foi grande, tudo sempre foi belo, o Povo sempre foi pacífico e os governantes justos.

Com a volta da Democracia, ocorre uma reação imediata à historiografia da Ditadura. Além de escancarar todos os crimes cometidos pela Ditadura, a nova História busca desconstruir a anterior. O Brasil foi descoberto por acaso, os bandeirantes eram assassinos, D. João era um gordo covarde, a abolição foi uma farsa, a República um golpe e o País não presta e não tem futuro.

Graças ao Governo Lula, a auto-estima do Povo Brasileiro foi recuperada. Com isso, o pêndulo volta-se para o outro lado e uma nova História começa a ser contada. Ela busca contar como figuras que já foram idolatradas, execradas, reabilitadas, enaltecidas e esquecidas (conforme a época) era pessoas normais, com mentalidade de sua época, qualidades e defeitos. Ainda é cedo para visualizarmos que tipo de História está sendo contada, até porque isso vai depender de quem for o vencedor dos dias de hoje.


EM TEMPO: Ainda que o livro "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" tente usar a linguagem da historiografia em movimento (a atual), seu conteúdo é perfeitamente adequado aos defensores da (ultrapassada) tese de que "esse país não tem jeito". Às vezes parece que essa turma torce contra o Brasil...

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De São Paulo-SP.

Um comentário:

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